Moradores próximos à hidrelétrica se queixam da falta de comunicação

O aposentado Mário Santos Lima mora com a esposa há 30 anos em uma palafita no quilômetro 23 do ramal da Morena (Gilson Mello/Free lancer)

Fonte: acritica.com

Em uma canoa às margens do Rio Uatumã, o aposentado Mário Santos Lima acenava para o barco da Defesa Civil pedindo ajuda. Ele e a esposa moram há 30 anos em uma palafita no quilômetro 23 do Ramal da Morena, zona rural de Presidente Figueiredo, a 110 quilômetros de Manaus. 

Isolado, o idoso é mais um dos vários moradores do local surpreendidos com o nível da água que só aumenta. De longe ele perguntava o horário em que a embarcação da prefeitura iria passar para que  pudesse ir à feira  comprar mantimentos. De acordo com o aposentado, há dois dias os ônibus já não circulam mais pela área.

No local já foram detectados pela Defesa Civil cinco pontos de alagamento e mais de 20 casas em zona de risco, mas os moradores afirmam que pelo menos sete locais ao longo do ramal devem ficar submersos nos próximos dias, impedindo o trânsito de aproximadamente 1300 pessoas que lá habitam.

Sem dialogo

Um deles é o agricultor Jorge Carvalho que mora na comunidade São Jorge e não consegue mais escoar a produção pelas vias terrestres. Lá os próprios moradores construíram uma passarela de madeira e um píer para facilitar o processo de baldeação. Para ele, a falta dialogo tanto das autoridades públicas quanto das empresas que administram a usina atrasaram os processos e deixaram as pessoas em pânico. 

“Nem a prefeitura, nem a Eletrobrás veio conversar com a gente para fazer um plano de fuga. Eles colocaram 3 ou 4 sirenes lá fora e essa sirene não serve de nada, porque deveria informar todo o dia a quantidade de água que está vazando e informar o que pode acontecer. Nós temos aqui idosos, crianças e a gente fica sem saber de nada”, relata o agricultor. 

Jorge defende a necessidade de que seja realizado o aterramento das regiões alagadiças para evitar que a vicinal seja interditada. Conforme o acordo firmado judicialmente entre a Prefeitura de Rio Preto da Eva e a Eletronorte, a empresa deve disponibilizar lanchas, cestas básicas e combustíveis, mas as embarcações, segundo os moradores, ainda não são suficientes para atender as demandas.

“Eles detectaram esses pontos e se tivessem feito um plano bom eles elevavam [a pista], a gente não ficava isolado e o custo seria bem menor do que colocar lancha e a gente teria o direito ir e vir [assegurado”, sugeriu. 

A falta de comunicação torna ainda mais dramática a vida dos comunitários e as notícias falsas se acumulam nas redes sociais, conforme Jorge. O mesmo pensamento é partilhado pelo  agricultor, Raimundo Nonato Ferreira. Para ele, a abertura da comporta e consequente elevação do rio é uma situação comum para quem ali habita, mas nesta última enchente a empresa e a prefeitura não são claras quanto as ações que serão prestadas, por isso, os moradores ficam à mercê da desinformação.

“Antigamente não tínhamos notícias falsas. Eu morava do outro lado [do rio] e era normal ter enchente e nunca tinha visto esse tipo de comentário. Eu acho que o poder público tem que resolver essa situação, porque é dever deles fazer algo [pela comunidade] e eles não estão fazendo”, reclamou Raimundo. 

Água monitorada

No  percurso feito pela equipe de A CRÍTICA ao longo de 40 quilômetros próximos ao ramal da Morena foi possível observar a água invadindo boa parte das construções que ficam à beira da pista. A água, em boa parte do rio é limpa, mas próximo às comportas há presença de uma espuma. 

Segundo uma das biólogas que acompanhou a equipe de A CRÍTICA, esse processo ocorre pois a vazão da hidrelétrica retira do fundo do Uatumã diversos matérias orgânicos que em contato com o oxigênio se transforma em uma espécie de detergente. A Eletronorte, no entanto, realiza o monitoramento da qualidade da água e até o momento não identificou prejuízos ao bioma em decorrência desse fenômeno. 

A empresa tem realizado o cadastro de moradores que terão as casas invadidas pela água e precisaram sair do local. Pedimos esclarecimentos sobre outros pontos relatados nessa reportagem  por meio de mensagem eletrônica e ligação mas até o momento a empresa não se pronunciou.

A Prefeitura de Presidente Figueiredo também levanta a quantidade de pessoas que devem receber um auxílio-aluguel durante o período da enchete. Foi articulada uma força-tarefa para atender os moradores do Ramal da Morena. 

A base operacional funciona 24 horas e disponibiliza água, alimentação, internet e transporte para os comunitários. De acordo com a prefeita Patrícia Lopes a demora da Eletronorte em comunicar  as providências para amparo da população não prejudicaram a ação  de assistência do município, pois as comportas já estavam abertas e a liminar da Justiça que suspendeu a elevação das comportas só atrasou em quatro dias a subida do rio. A prefeita também se posicionou a respeito do aterramento do ramal. “Fazer essa elevação em um período chuvoso nem é possível. Contudo, é inevitável que o ramal fique alagado muito mais que 50 centímetros. Somente quando baixar o nível de água voltarmos ao normal aí poderemos elevar o nível do ramal, mas não para solucionar um outro momento em que elevarem as comportas”, esclareceu.

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